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Amarração de carga: o que a expedição precisa decidir antes do caminhão encostar

O que a Resolução Contran 945/2022 exige na amarração de cargas e como a expedição pode preparar volumes, ocupação e sequência para que o travamento funcione.

DATA
22 OUT 2026
AUTOR
Equipe Volugami
LEITURA
6 min
Ilustração de carroceria aberta com pallets de caixas presos por cintas laranja tensionadas pelo lado interno das guardas laterais e cintas diagonais na traseira.

Um caminhão de carroceria aberta encosta na doca. A carga ocupa dois terços do comprimento, os pallets têm alturas diferentes e sobra um vão entre a última fileira e a tampa traseira. O motorista tem cintas, mas a forma como a carga foi montada já decidiu boa parte do que elas conseguem segurar.

A amarração costuma ser tratada como assunto do transportador. A regra brasileira, de fato, cobra o veículo e a forma de transporte. Ainda assim, quem monta os volumes, escolhe a ordem de carregamento e informa peso e dimensões influencia se a carga chega ao veículo pronta para ser travada ou cheia de vãos difíceis de resolver.

O que a Resolução Contran 945/2022 exige

A Resolução Contran nº 945, de 28 de março de 2022, publicada no Diário Oficial da União em 1º de abril de 2022, fixa os requisitos mínimos de segurança para amarração de cargas em veículos de carga. Ela revogou as Resoluções 552/2015, 631/2016 e 676/2017, que tratavam do mesmo tema.

Os pontos que mais afetam a rotina de quem expede:

  • Objetivo geral (art. 3º): a carga deve estar amarrada, ancorada e acondicionada para prevenir movimentos durante manobras bruscas, solavancos, curvas e frenagens.
  • Dispositivos (art. 4º): cintas têxteis, correntes ou cabos de aço, respeitando fator de segurança mínimo de duas vezes o peso da carga, além de dispositivos adicionais como barras de contenção, calços, mantas de atrito, separadores e protetores.
  • Cordas proibidas (art. 4º, § 3º): só podem ser usadas para prender a lona de cobertura.
  • Tensionamento (art. 4º, § 2º): cabe ao condutor verificar periodicamente o aperto durante o percurso.
  • Carga fracionada em prancha ou carroceria aberta (art. 5º): cada unidade de carga deve ser amarrada em pelo menos quatro terminais de amarração.
  • Espaço vazio no comprimento (art. 7º): quando a carga não ocupa toda a carroceria no sentido longitudinal, o transportador deve usar também dispositivos diagonais que impeçam o movimento para frente e para trás.
  • Sider (art. 9º): as lonas laterais não contam como estrutura de contenção.
  • Baú fechado (art. 10): em furgões e baús isotérmicos ou frigoríficos, as paredes podem ser consideradas contenção, e pontos internos de amarração são opcionais.

O descumprimento é enquadrado em artigos do Código de Trânsito Brasileiro (arts. 169, 230, 235 e 237, conforme o caso), como lista o art. 11 da própria resolução.

Este artigo resume a norma para orientar o planejamento. Ele não substitui a leitura do texto oficial, do Anexo técnico da resolução nem a orientação do transportador e do fabricante dos dispositivos.

O que a resolução não decide por você

A norma diz que a carga não pode se mover. Ela não diz como montar cada pallet, em que ordem carregar ou onde colocar o volume mais pesado. Essas decisões começam antes da doca.

Para preencher essa lacuna, uma referência prática é o guia europeu de boas práticas para amarração de cargas no transporte rodoviário, publicado pela Comissão Europeia em 2014 e baseado na norma EN 12195-1. Ele não é lei no Brasil, mas organiza a física do problema e as responsabilidades de cada etapa de um jeito útil para qualquer operação.

O guia trabalha com estas referências de projeto para o sistema de amarração: resistir a 0,8 do peso da carga para frente, 0,5 para os lados e para trás, e 0,6 para os lados quando há risco de tombamento.

Simulação ilustrativa: um pallet de 700 kg precisaria de contenção equivalente a cerca de 560 kg-força para frente e 350 kg-força para os lados e para trás, segundo essas referências. Isso mostra a ordem de grandeza do esforço, não o número de cintas. O dimensionamento real depende do atrito, do método de amarração, dos dispositivos e do Anexo da resolução brasileira.

Quatro decisões da expedição que facilitam o travamento

1. Descrever cada volume com dados completos

Na etapa de planejamento, o guia europeu lista o que deve acompanhar a carga: massa total e de cada volume, posição do centro de gravidade quando não estiver no meio, dimensões externas e limitações de empilhamento e orientação.

Na prática, isso significa que a ficha do pallet precisa trazer mais do que "1 pallet, 700 kg". Se o centro de gravidade está alto, se o volume não aceita outro por cima ou se precisa seguir em pé, essa informação deve chegar a quem carrega.

2. Montar volumes que se comportem como um bloco

O guia observa que a rigidez da unidade de carga depende de todos os níveis de embalagem, inclusive do próprio produto. Quando a embalagem de transporte não aguenta as forças da viagem, a recomendação é travar a carga por bloqueio contra a estrutura do veículo, em vez de depender de cintas apertando o volume.

Filme bem aplicado, fitas com cantoneiras e caixas com resistência compatível ajudam o pallet a funcionar como unidade. O guia alerta que fitas de PP, PET e PE tendem a perder tensão com o tempo e podem danificar produtos sem proteção nos cantos.

3. Planejar a ocupação para reduzir vãos

Vão é o ponto onde a amarração fica mais difícil. No bloqueio global, o guia recomenda que a soma dos espaços vazios em qualquer direção horizontal não passe de 15 cm. Acima disso, os vãos devem ser preenchidos, por exemplo com pallets vazios em pé, sarrafos de madeira ou bolsas de ar. Bolsas de ar não devem ser usadas contra portas ou paredes que não sejam rígidas.

A regra brasileira chega ao mesmo ponto por outro caminho: carga que não ocupa todo o comprimento exige dispositivos diagonais adicionais (art. 7º). Quanto melhor a ocupação planejada, menos o carregamento depende de improviso na doca.

4. Distribuir peso e definir a sequência

O guia lembra que limites de carga por eixo dependem da posição do centro de gravidade da carga. Em geral, a carga útil máxima só pode ser usada quando esse centro fica perto da metade do comprimento do compartimento. Fabricantes de veículos e carrocerias podem fornecer diagramas de distribuição de carga para essa verificação.

Para a expedição, a pergunta é simples: o volume mais pesado vai onde e em que momento entra no veículo? Se a ordem de carregamento for decidida só na hora, o peso tende a ficar onde havia espaço, não onde deveria estar. Em entregas com várias paradas, a sequência também precisa considerar o que sai primeiro.

Checklist para a próxima carga

Antes de liberar o veículo, confira:

  1. Peso, dimensões externas e restrições de empilhamento de cada volume foram informados ao transportador.
  2. Os pallets estão firmes, com filme ou fitas e cantoneiras quando necessário.
  3. O tipo de carroceria foi considerado: aberta, sider ou baú fechado mudam o que serve como contenção.
  4. A ocupação deixa poucos vãos, e os que restam têm preenchimento previsto.
  5. O peso está distribuído ao longo do compartimento, sem concentrar volumes pesados em uma extremidade.
  6. A ordem de carregamento considera peso, empilhamento e a sequência das entregas.
  7. Há cintas, correntes ou cabos em bom estado, com tensionamento, e nenhuma corda está sendo usada para prender carga.

Os itens 1 a 6 dependem de planejamento. O item 7 depende de equipamento e de quem executa a amarração.

Onde o planejamento entra

A Volugami planeja como volumes ocupam caixas, pallets, veículos e contêineres, considerando dimensões, peso, capacidade e sequência. O plano chega ao operador como uma sequência numerada no celular. Isso ajuda a expedição a chegar à doca com ocupação e ordem de carregamento definidas, em vez de decidir na hora.

A ferramenta não substitui o dimensionamento da amarração nem a responsabilidade do transportador pelo travamento. Ela organiza as decisões que vêm antes. O plano grátis da Volugami é permanente, não pede cartão e inclui 150 planos salvos por mês. Você pode testá-lo com uma carga real da sua operação.